"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Landro Oviedo
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Textos

João Cândido, o gaúcho que sacudiu a República Velha

     João Cândido nasceu em Encruzilhada (RS), então distrito de Rio Pardo, em 1880, em uma área de campo de um famoso fazendeiro da região, filho de ex-escravos, João Cândido Velho e Ignácia Cândido Velho. Em uma entrevista famosa, afirmou ter lutado na Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, o que teria acontecido por volta de seus treze anos, evidenciando sua precocidade no trato com os episódios mais candentes da nossa história conturbada.

     Por influência de seu preceptor, almirante Alexandrino de Alencar, ingressou na Marinha do Brasil ainda em 1893. Logo, chamaram-lhe a atenção as injustiças praticadas naquela força contra os marujos, que eram submetidos a longas jornadas, péssima alimentação, humilhações de todo tipo, racismo e castigos físicos por meio de chibatadas. A escravidão havia sido abolida formalmente no país em 1888, todavia, a cúpula da Marinha fazia suas próprias leis e os governantes vistas grossas. Esse panorama, marcado por adversidades, ganharia um novo capítulo com uma viagem de João Cândido para o exterior.

     Em 1908, João Cândido, na companhia de outros marinheiros, partia para o Reino Unido para buscar navios mais modernos para integrar a sucateada frota nacional. Foi assim que ele retornou capitaneando embarcações de última geração, como o São Paulo e o Minas Gerais. Nessa estada naquela nação europeia, pôde estabelecer contato com ideias mais revolucionárias e marujos com avançada consciência de classe. Sua mente se abriu e ele percebeu que o tratamento destinado aos marinheiros no país não poderia continuar a ser tão cruel e injusto. Estava germinando uma revolta que marcaria a história do Brasil logo a seguir.

     Em novembro de 1910, as tratativas para a eclosão já estavam adiantadas. A rebelião acabou ocorrendo quando o marinheiro Marcelino Avelino Menezes recebeu o castigo de 250 chibatadas por conta de supostas pequenas infrações, isso em 22 de novembro de 1910. A Revolta da Chibata irrompeu. O comandante do navio Minas Gerais foi morto junto com alguns de seus comandados, e João Cândido assumiu a liderança. Ele tinha um histórico técnico primoroso e mostrou suas qualidades na navegação, além de ser um líder nato respeitado pelos seus iguais. A cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e os governantes cederam às reivindicações, que incluíam o fim do uso da chibata. Todavia, o presidente recém-empossado Hermes da Fonseca, gaúcho, como João Cândido, revelou-se um traidor, rasgou o acordo e mandou prender a marujada rebelde.

     As prisões, os assassinatos, as torturas e as perseguições não se fizeram esperar. João Cândido foi preso em uma cela da Ilha das Cobras no final daquele ano fatídico, juntamente com mais 17 prisioneiros. Colocaram cal na solitária e somente ele e mais um preso conseguiram sobreviver. Em 1911, foi levado a um manicômio, de onde saiu para uma vida errante, sempre perseguido, em terra e no mar, pela rancorosa Marinha do Brasil, depois de ele e seus companheiros serem absolvidos de todas as acusações em 1912.

     Não é fácil a vida de um herói popular. A vocação de João Cândido para ser um marinheiro militar nunca mais foi de novo vivenciada. Ele começou a viver de pequenos bicos enquanto a Marinha continuava a persegui-lo de uma forma implacável. Quando ele arrumava um trabalho, ela forçava sua demissão. Se obtinha uma homenagem, ela lograva cancelá-la. Se lhe destinavam uma renda, ela conseguia sustá-la. Isso lhe causou dor e traumas familiares. Sua segunda mulher ateou fogo às próprias vestes diante de tantas vicissitudes. Mesmo assim, sua história começou a ser paulatinamente reconhecida e virou livros e documentários. Aos poucos, os arautos das trevas tiveram que ceder ao seu brilho em uma trajetória de luta pela dignidade humana.

     João Cândido morreu em São João do Meriti, em 1969, chegando a uma longevidade improvável. Seu legado já não pode ser escondido. As homenagens pululam pelo Brasil todo, como em Porto Alegre, onde foi colocado um busto seu num lugar improvável, o Parque Marinha do Brasil, não sem a oposição da unidade naval da Capital. Sua reabilitação está ocorrendo como uma justa reparação pela sua contribuição para um mundo mais justo e menos desigual.

     Depois da Revolta da Chibata, nunca mais um marinheiro apanhou de um chibatador. Essa conquista encontra paralelos em outras melhorias conquistadas por um povo oprimido ao longo dos tempos, como no caso dos direitos sociais. O exemplo de João Cândido permanece vivo como uma evidência de que nossos inimigos de classe têm boas trincheiras, mas elas não são inexpugnáveis. O Almirante Negro, como ficou conhecido, sabia que navegar é preciso e o viver impreciso, mas que a precisão é um atributo profundamente humano.

     Em tempo: o marechal Hermes da Fonseca, ao trair João Cândido, mostrou que a palavra dada com um fio de bigode é apenas uma lenda gaúcha.

 

 

Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 05/08/2026
Alterado em 05/08/2026
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