"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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CAPITU NÃO TRAIU   
 
    O título deste artigo poderia estar entre aspas (“Capitu não traiu”) ou em forma de pergunta igualmente com esses sinais de escrita (“Capitu traiu ou não traiu?”), uma vez que são frases repetidas e grafadas à exaustão desde que o mago Machado de Assis nos legou esse enigma literário em “Dom casmurro”, publicado em 1899. Contudo, como já deve ter intuído o leitor mais atento, este articulista, exercendo seu direito temerário de interpretação, titula com letras garrafais que Capitu não traiu.
    Salvo melhor apreciação, e na esteira de estudos ligeiros, a diferença entre a neurose e a psicose está no fato de que, na primeira, existe uma turbação da compreensão da realidade e, na segunda, uma desconexão entre o indivíduo e o seu meio. Na neurose, ele ainda consegue estabelecer um canal com o mundo exterior, ainda que de forma precária. É o caso de Bentinho, um neurótico que escreveu um livro para relatar o possível adultério de que foi parte. Contudo, em nenhum lugar consta um relato da parte acusada, no caso, Capitu.
    Todos os dias, ficamos sabendo de casos de homens que, eivados de um sentimento de posse próprio de uma cultura machista, alegam possíveis traições para justificar agressões às suas parceiras. Não raras vezes, isso se revela como algo totalmente fantasioso. Patologias interpretativas têm ornado a cabeça dos amantes desde os dias mais remotos da humanidade. A lágrima de Capitu no velório de Escobar bem poderia ser a da perda de uma pessoa que fazia parte de um clã quase familiar e a semelhança de Ezequiel com Escobar é na visão de Bentinho. Essas duas possíveis provas são adulteradas e se mostram tão consistentes quanto a probabilidade de uma chuva natural sem nuvens.
    Em geral, os leitores, e não necessariamente as leitoras, identificam-se com a infeliz saga de Bentinho e tendem a adotar seu ponto de vista. Para isso, espelham-se em pistas frágeis deixadas por Machado de Assis ao longo da narrativa. Contudo, o depoimento amargurado do personagem deve ser visto com reservas. A verdade: Capitu não traiu. Pelo menos até que se prove o contrário.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 13/04/2014
Alterado em 14/04/2014


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