"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


     NOSSAS OUTRAS VIDAS, TÃO PERTO E TÃO LONGE

    O avanço tecnológico se imiscui no nosso cotidiano com alterações ontológicas profundas a ponto de hábitos e costumes se perfilarem para entrar no baú dos guardados com uma rapidez sem precedentes. Novas rotinas surgem, maneiras outras de interações que levam muitos a pensar em como seria a vida sem esses mecanismos.
    Em uma aula, eu contava para os alunos que nós, nas entidades estudantis, fazíamos os boletins com máquina de escrever e letra transferível. Muitos deles jamais haviam ouvido falar nessa forma de lançar ideias no papel. O que se faz agora em segundos no computador, digitar um título, nós levávamos um tempo considerável.
    Outro hábito radicalmente transformado, só mantido por bravos resistentes, é o de escrever cartas. O advento do e-mail e das redes sociais legou a comunicação instantânea. Em tempos não idos há tanto tempo assim, havia o ritual de escrever a carta e ir ao correio remeter aquela missiva que, por vezes, levava ânsias e esperanças de boas-novas, principalmente as cartas endereçadas às namoradas, as mais demoradas para ir e obter resposta. Que espera infinda!
     Se formos também prospectar sobre mudanças em outras áreas, hoje já sabemos como nascem os bebês. Antigamente, os pais somente desvendavam o mistério no dia do nascimento, quando vinham à luz os seus rebentos. Hoje, eles já são vistos no útero da mãe precocemente, recebendo tratamentos adequados e até sendo acompanhados em seu hábitat via câmeras, num autêntico “reality show”. Podemos, ainda, lembrar a comunicação, de profundas alterações. Uma vez, de tão raros que eram os telefones próprios, os formulários traziam itens para colocar o “fone de recado”. Hoje, com o celular e a proliferação dos torpedos, cada pessoa carrega consigo uma central de comunicação, rompendo limites geográficos. Sem falar no texto, que, hodiernamente, pode ser armazenado, trocado, copiado e colado, sem “datilografá-lo” a cada novo uso. Essa descoberta veio a constituir a suprema ventura para escritores e editores, que ganharam um tempo precioso no processo criativo e de editoração.
     Nossas vidas mudaram para continuar a ser as mesmas. Temos agora condições de reproduzir mais facilmente uma foto para relembrar um momento de felicidade. Somos criadores e criaturas dos nossos momentos. O suporte vem de meios externos e avançados, mas a essência advém de nós mesmos, do que fazemos com o que está na vitrine à espera de ser inserido em nosso cotidiano.



CORREIO DO POVO
ANO 118 Nº 98 - PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 7 DE JANEIRO DE 2013
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/01/2013
Alterado em 18/01/2019


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