"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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 O 13 DE MAIO COMO PARTE DA LUTA ANTIESCRAVIDÃO 
   Boa parcela do movimento negro, numa revisão histórica, adotou o 20 de Novembro, dia da morte do líder negro Zumbi, como a data representativa da luta dessa etnia pelo fim da escravidão. Realmente, Zumbi é um dos poucos heróis nacionais ligados ao povo, assim como João Cândido, Frei Caneca e Castro Alves. Homenagem merecidíssima, justa, irretocável. Contudo, a saga de um povo pela sua libertação se faz com muitos momentos, com muitos processos. Foi assim com Cuba, quando Jose Martí liderou uma revolta derrotada, na qual perdeu sua própria vida. José Artigas é outro exemplo. Suas vitórias e derrotas foram o êmulo dos que o sucederam para construir a Pátria Oriental. Mesmo Simón Bolívar só empreendeu sua jornada vitoriosa após vários reveses. 
     O 13 de Maio representa uma vitória por encerrar definitivamente uma relação de posse, de direitos reais, de propriedade de um ser humano sobre outro. O fim desse vínculo jurídico representa uma incapacidade da classe dominante de antanho de manter seu domínio. E isso só foi possível porque o povo negro e seus aliados forçaram o aparato jurídico a capitular, numa demonstração de força. A partir dessa data, ainda que com discriminação racial, nenhum negro precisaria obedecer à ordem de um senhor. Isso é um marco histórico que deve ser considerado. Quantas imprecações não fizeram os desapossados de escravos nesse dia, lamentando a perda de mando e o fim de uma era que lhes era favorável pela dominação exercida? Em suas peculiaridades, tanto o 13 de Maio quanto o 20 de Novembro são parte da luta contra a opressão e a injustiça. 
     A escravidão foi uma chaga que atrasou a alma do país, como bem explana Joaquim Nabuco na obra "O Abolicionismo" (1883), quando especula acerca de suas implicações no caráter do brasileiro para além de sua desejável erradicação na época. Não é para menos, pois conviver com os grilhões de homens que deveriam ser livres só poderia levar à ação de alguns idealistas ou a tergiversações de muitos em promíscua relação com argumentos justificadores de uma espoliação econômica. 
     A liberdade, em todos os tempos, é uma quimera que se nutre da seiva da realidade. Não há um só homem injustiçado que não haja vertido lágrimas sem a esperança, ainda que ínfima, de um dia ser compreendido pelos seus pares no futuro. Todos os que já foram escravos, neste 13 de maio, podem andar livremente por nossa memória.


CORREIO DO POVO,  PORTO ALEGRE, DOMINGO, 13 DE MAIO DE 2012, p. 2.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 13/05/2012
Alterado em 13/05/2015


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